A justiça tem constituído, quase desde os primórdios do cinema, um tema recorrente, com múltiplas abordagens, mais realistas, satíricas ou simbólicas. No caso específico do cinema norte-americano, muito deste cinema “forense” provém de um vasto filão literário. É o caso do maravilhoso filme To kill a mockingbird, uma adaptação, de 1962, com realização de Robert Mulligan, a partir do célebre romance homónimo da misteriosa Harper Lee.
No essencial, a trama fala-nos da meninice de duas crianças numa pequena localidade do Alabama, sendo o seu pai um notável advogado local, que é designado como defensor oficioso de um negro que é acusado de violar uma rapariga branca. Entre muitas outras coisas, o livro e o filme são (também) um ensaio sobre a América dos anos 30, quando o movimento pelos direitos civis era ainda uma imagem longínqua. A vivência quotidiana das crianças é-nos desfiada quase em jeito de fábula, enquanto, em simultâneo, se adensa a narrativa crua e impiedosa de uma condenação popular e a multidão se converte em milícia de linchamento.
Ao assistir, deslumbrado, a este filme, que é primorosamente interpretado por Gregory Peck, lembrei-me da minha própria pequena localidade e do quanto os advogados, juízes, médicos e professores constituíam figuras carismáticas e estruturantes da comunidade. Eram as histórias, as lendas, os boatos, a presença e até as suas respetivas casas, que eram conhecidas por lhes pertencer, como se fossem uma extensão do seu corpo e do seu múnus. A sua intervenção cívica estendia-se pelas ruas, cafés e instituições de proximidade.
No filme, logo no início, o advogado, Atticus, recebe nozes de um cliente que não consegue pagar-lhe honorários. Atticus explica aos filhos o nobre simbolismo daquela oferenda. Um dos elementos preponderantes da casa de Atticus é o seu alpendre – característico da arquitectura daquela região –, onde ele recebe pessoas, observa os passantes e contempla a vivência da comunidade de que faz parte. Atticus é um bastião naquele lugar, mesmo (e sobretudo) quando assume aquela polémica defesa.
Em Portugal, os tribunais recuam dos lugares e, aos poucos, os advogados de proximidade também o fazem. Idêntico fenómeno sucede com as outras figuras de referência: médicos, professores, engenheiros e farmacêuticos. Quantas vezes, eram eles, mesmo quando estrangeirados, que escreviam as memórias e as monografias locais, resgatando do esquecimento as figuras, os episódios e as memórias que não cabem na narrativa nacional.
O tribunal e os consultórios, enquanto lugares simbólicos, serviam as comunidades como as oliveiras nas extremas dos socalcos vinhateiros: impedindo a sua desagregação lenta e muda.
Desde o seu alpendre, Atticus avistava a entrada do tribunal. Quase o revejo a bebericar a chávena de café de saco em vésperas do julgamento.
