Devia ter percebido que a compostagem hortícola doméstica era, de facto, um negócio de nicho. E nem a aplicação para telemóveis lhe valera. Os hipsters do Montijo queriam era atulhar as carrinhas cintilantes com cerveja biológica norueguesa e salgadinhos de rabanete da Costa Vicentina. Tanto tempo, tanta carolice, tanta formação on-line… Tudo para se despenhar ali: naquele cubículo de portagem de auto-estrada. Sentia-se uma espécie de bastião do analógico, posto que quase todos os outros postos já haviam sido automatizados. De um lado, ao fundo, avistava o cintilar luarento do mar da palha; do outro, o pintalgado do urbanismo manhoso das redondezas. A cabine era acanhada, o que, ser sincero, lhe agradava bastante. Já que não concretizara os seus projectos de eremitismo na América do Norte, aquela cabine era o que alcançara de mais próximo à cabana de Thoreau. Isto, embora duvidasse bastante que o célebre caminhante se revisse na comparação. Como os contratos eram semestrais, hesitava sempre em personalizar demasiado o espaço. Tinha definido, para si, como limite, a não colocação de molduras com fotografias da namorada e dos pais. No entanto, não resistira a colocar os seus livros predilectos numa pequena prateleira; a sua cafeteira “italiana” sobre a mesa; um bloco de desenho; e uma pequena coluna de som. A cabina era um exercício de depuramento: apenas o que lhe era rente e essencial lá cabia. E, a bem ver, a sua casa não era desmedidamente maior. De toda a gente escalada, tinha de lhe ter caído o turno da noite de consoada. Um ligeiro amainar do trânsito havia-lhe permitido findar um pequeno livro que o tio lhe havia oferecido no aniversário. Deu consigo a pensar que o conto, apesar de ser um género inventado há-muito, parecia já o ter sido a pensar nos dias de hoje, pois era a justa medida de leitura da maior parte das pessoas. E estava impressionado de sobremaneira com aquele! Não conhecia bem o escritor, mas ficara com vontade de desbravar a sua obra, quem sabe pesquisando nos alfarrabistas que sobreviviam na baixa. Ficara tão absorto com a história, que nem se apercebeu de que se agigantara, algo subitamente, uma fila a protestar pela falta de avanço do carro à sua frente. Abriu o pequeno postigo e perguntou ao condutor se precisava de ajuda. Lá dentro, um velho franzino conduzia um velho Escort cor de ovomaltine. O velhote insistia em pagar a portagem com o cartão da Associação de Caça de Alagadiços, firmando que sempre tivera desconto. Ele devolveu-lhe que jamais havia sequer ouvido falar em semelhante grémio. O ancião, já um pouco impaciente e nervoso, insistia pelos seus direitos. Ele, atreito às suas funções, resistia e remetia para os cartões digitais aceites. Entretanto, já uma longa fila se acumulava, com gente a vociferar pela janela. A dada altura, lembrou-se do conto que acabara de ler. Estacou por momentos. De seguida, volveu ao condutor e disse-lhe: – “Ah, peço imensa desculpa, tem desconto, pois claro! Esqueci-me do velho protocolo com os caçadores!” O velho sorriu timidamente, apontando, com um esgar de orgulho, para a sua fotografia no cartão plastificado. Ao espreitar os dizeres, ele notou que o cartão já havia expirado há mais de cinco anos. Mas não deu de si. Recebeu o punhado de trocos e atirou: – “Feliz natal e boa viagem para o senhor!”. O velho aquiesceu, num sorriso contido, passando no carro a chocalhar. De seguida, após aquele interlúdio, regressou a freguesia costumeira, com a sua pressa inclemente. Sobre a mesa, em edição puída, estava o ditoso conto: “O Natal do clandestino”, de José Rodrigues Migueis. E ele pensou para si: – “Não serei o guarda portuário de Baltimore, mas acho que, por hoje, já fiz a minha parte.”
Ao olhar pela janela, já não distinguia o velho Escort, a diluir-se no azulado gélido da multidão de faróis de leds, daqueles que dizem poupar imenso.
