A Vigília Salvífica de Ebenezer

O Natal é já como uma tabuleta à ilharga da estrada, que se vai encolhendo na esquadria do retrovisor. É neste compasso de distância que, por vezes, nos invadem as imagens e memórias de outros tantos natais das nossas vidas. O natal na europa ocidental, para além da sua matriz religiosa, com toda a iconografia inerente, é ilustrado por algumas narrativas que atravessam gerações, perpetuadas por sucessivas reinterpretações, ao sabor de cada época. Tal é o que sucede, a título de exemplo, com o célebre Um Cântico de Natal, de Charles Dickens, uma obra literária, da primeira metade do século XIX, celebrada no cinema, na ilustração e até na criação musical. O fio de narrativa essencial, de tão sobejamente conhecido que é, dispensará ser relembrado. Scrooge é uma figura tão popular que quase nos lembra um familiar avarento. Como é sabido, Dickens verteu, no seu vasto filão literário, muita da sua profunda sensibilidade social, ou não tivesse ele conhecido os revezes da fortuna, que, na sua infância, o levaram de uma vida burguesa de conforto para a aspereza dos bairros operários londrinos que visceralmente descreveu. Mas, para além destas preocupações, não será arrojado dizer que a justiça também foi um tema presente na sua criação literária. Tal é notório, a título de exemplo, em Grandes Esperanças. Não falo aqui tanto da justiça formal e institucional – pese embora a mesma também seja retratada, noutros lugares, pelo autor -, mas, bem mais, do sentido e percepção de justiça, entendida como uma perspectiva consequencial da vida, das decisões e dos caminhos tomados. É disso que, entre outras coisas, nos fala Dickens, na sua narrativa natalícia que, tão ao sabor da época, tem uma vocação interpeladora e moralizadora. Na sua vigília, mediante a visita dos três espíritos, Scrooge vê desfilar, diante de si, a sua própria vida, mas, sobretudo, a sua transformação lenta num ser cada vez mais amargo, só e profundamente egoísta. O tempo desempenha aqui um papel central, porque tudo lhe é relembrado numa breve e ininterrupta narrativa. E é essa brevidade que confere intensidade à experiência de Scrooge, sendo indutora do seu autoconhecimento. A dada altura, o encadeamento causal torna-se evidente e límpido para Scrooge, que é colocado numa escarpa entre a assunção de um destino ou a sua renegação. No clímax da narrativa, aquilo que o espaçamento temporal silenciou torna-se subitamente estridente – daí advém a redenção de Scrooge. Ora, é isto que muito escassamente ocorre no mundo da justiça institucional. A morosidade é tida como um flagelo, ao retardar a composição do litígio, com os prejuízos materiais e morais daí advenientes. Mas o tema é mais fundo do que isso: a quebra da narrativa degrada o que poderia ser uma intensa vigília, convertendo-a numa ladainha quebrada, destituída de capacidade regeneradora. Enleado no torpor processual, Scrooge dificilmente acordaria para o seu novo eu. Ao invés de correr, em trajes de dormir, pela neve intocada da manhã, talvez Scrooge se endomingasse para zurzir uma apelação enfurecida. Ao fragmentar-se no tempo, a administração da justiça certamente ganhará em acuidade instrutória e prudência decisória, mas quanto perderá enquanto narrativa indutora de transformação e vivência meditativa. E, assim sendo, tal como no início, o natal seria apenas uma imagem embaciada no retrovisor.